Por uma gestão criteriosa

Num mundo perfeito, o plantel do Benfica seria composto por 22 jogadores de classe mundial. Contudo, no mundo real, não há dinheiro para isso. Assim, no mundo real, manda a racionalidade económica que se faça uma gestão de recursos que permita ao mesmo tempo que 1) as equipas tenham qualidade; 2) haja espaço para jovens crescerem; e 3) a sustentabilidade financeira não esteja em causa.

Nesse mundo real, uma gestão eficiente de recursos significa então 1) que o plantel tenha 15/16 jogadores de enorme qualidade que garantam que qualquer 11 que entre em campo seja forte; 2) que o plantel não é demasiado grande (não mais do que uns 22/23 jogadores) para permitir que os miúdos que apareçam a partir tudo na B possam começar a entrar nas contas da A; e 3) que os restantes 7/8 lugares no plantel não sejam preenchidos com jogadores demasiado caros.

Ora, é neste contexto de gestão eficiente que entram jogadores como Martim Neto. Trata-se de um jogador que não atingiu o patamar que se antevia. Contudo, trata-se de um jogador barato, formado no Seixal, e com qualidade suficiente para entrar em qualquer plantel da Liga, sendo que só não seria titular nos 4 principais clubes. São jogadores como Martim Neto que devem fazer parte daquela pool de 7/8 jogadores de plantel.

Nos últimos anos, houve muitos jogadores que poderiam perfeitamente ter feito parte do plantel.

  • Diogo Nascimento poderia muito bem ter ocupado o lugar de Renato Sanches
  • Martim Neto poderia muito bem ter ocupado o lugar de Leandro Barreiro
  • Henrique Araújo poderia muito bem ter ocupado o lugar de Belotti
  • Nuno Santos (do Vitória) o de Rollheiser (embora este podia ter sido melhor aproveitado)
  • Vukotic o de Meité
  • Nuno Santos (do Sporting) o de Caio Lucas
  • André Ferreira o de Helton Leite

Lembro-me ainda de Henrique Pereira (agora no Santa Clara), que demonstrou ser um extremo goleador na B (15 golos e 8 assistências entre 2022 e 2024), Guga, Pedro Álvaro, Pêpê, Fábio Cardoso, entre outros.

Dirão que não é com jogadores deste calibre que o Benfica é campeão. Não discordo. Contudo, o papel destes jogadores não é esse. Para fazer a diferença estão lá as 15/16 estrelas. O papel destes é comer a relva quando entram em campo. Desta forma, quando é preciso gerir os titulares, aquilo que se perde em qualidade, ganha-se em atitude. É por isto que um jogador como Tiago Gouveia é tão bem visto na Luz (com toda a justiça, diga-se). Tivesse um Bruma da vida metade da atitude do Gouveia…

Além de estes jogadores da casa serem muito mais baratos do que os que vêm de fora, há outra enorme vantagem em optar por esta estratégia: Por vezes, há late-bloomers que se tornam de repente mais valias inesperadamente. Temos um exemplo no plantel atual: Tomás Araújo foi encaixado no plantel após um empréstimo bem sucedido, mas ninguém esperava que ele fosse mais do que um suplente útil. Passado uns meses, tornou-se claro que ele tinha subido um patamar e assim o Benfica ganhou um titular. Infelizmente, Araújo é um caso raro, pois a norma é os jogadores saírem sem deixar a sua marca.

Tivemos e temos bons exemplos no passado. Além de Tomás Araújo, há o caso de Tiago Gouveia, houve os casos de Yuri Ribeiro e Diogo Gonçalves, entre outros. Os casos de Yuri Ribeiro e Diogo Gonçalves são na verdade bastante bons para ilustrar a valia desta filosofia: foram jogadores que não resultaram, mas que conseguimos rapidamente colocar. Já suplentes/flops caros como Meité ou Jurasek, após a admissão do erro, a única maneira que temos de nos livrar deles é ir emprestando ano após ano.

A venda de Martim Neto é um erro grave? Não, nem por isso. Contudo, casos como este contribuem para que depois não haja dinheiro para manter os melhores. A manta é curta, pelo que se puxamos de um lado, outro lado ficará descoberto.

One thought on “Por uma gestão criteriosa

  1. discordo o mal nunca esteve em não apostar nesses, ou noutros, que não tinham qualidade mas em falhar tantas contratações e tão caras para a qualidades que eles nunca tiveram.

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