O meu Benfica

O meu Benfica é o Benfica do Mantorras que apanhou um helicóptero e aterrou numa aldeia perdida no interior do país para fazer feliz um jovem pastor. Lembram-se desta história? É natural que não, não é propriamente algo digno de figurar nas memórias do Museu Cosme Damião. Para mim? Foi uma prova de simplicidade, de humildade, de, enfim, humanidade. Este era o clube que eu queria apoiar, o clube dos bons, o clube dos simples, o clube dos honestos, pelo que nunca esqueci este gesto algures no início do século.

O meu Benfica é o Benfica do Simão (o futebolista, não o dirigente). Um Benfica de esperança, pois havendo um Simão, haveria sempre um livre direto que poderia resolver o jogo. Havendo um Simão, nem contra o Porto de Mourinho entrávamos a perder, como não perdemos aquela Taça em 2004.

O meu Benfica é o Benfica do Rui Nereu. Sim, do Rui Nereu! O Benfica do menino da casa que naquela noite no Madrigal nem sequer era suposto estar no banco, quanto mais ter de se estrear, e que mesmo assim encheu a baliza e só de penalty foi batido. Que orgulho…

O meu Benfica é o Benfica do Aimar. Jogador de classe mundial, génio admirado pelos grandes génios. Aimar no Benfica? Impossível, craque desses não mete cá os pés. Só que o Benfica é um gigante, e é nos gigantes o lugar dos génios.

O meu Benfica é o Benfica do Renato Sanches. Ah carago, sangue na guelra, fogo na alma. Dizem mal, batem por bater? A resposta é dada da única forma que faz doer: No campo, à Benfica! O nosso menino de ouro…

O meu Benfica é o Benfica do André Horta. O Benfica do sofredor que festeja um golo ao Tondela como se de uma final da Champions se tratasse. Jogador-adepto, eu próprio lá dentro. Sonho de menino cumprido.

O meu Benfica é o do Bernardo Silva. Amor ardente, sempre presente. Mas espinha dorsal, não vale tudo.

O meu Benfica, mostrou-mo o senhor Alberto do tasco, desconhecendo que acendia uma vela que se descontrolou e deu incêndio. Como é que uma criança de uma pequena aldeia perto de Arganil se torna tão devota? Receita simples: honestidade e simplicidade. Honra.

Mas hoje, o Benfica dos honestos tornou-se num produto indistinto. O Benfica dos simples tornou-se numa empresa de plástico. A honra não mais é imagem de marca, toma a vergonha muitas vezes o seu lugar. O pior de tudo? A impotência. O desejo intenso redunda sempre em incapacidade de mudar o que quer quer seja, porque a cultura que primeiro se estranhou está hoje entranhada. Está entranhada de tal forma que passa despercebido a muitos que hoje, o circo chama-se Benfica e somos nós os seus palhaços. Talvez por ter isto presente, o incêndio de outrora não passe hoje de uma fogueirinha latente. O amor ao Benfica? Será eterno. As memórias? Farão companhia até à cova. O Benfiquismo puro e inocente? Está irremediavelmente afetado.

Vemo-nos por aqui e por aí, quando calhar.

Cláudio C.

6 thoughts on “O meu Benfica

  1. já lá dizia o grande camões que fraco rei faz fraca forte gente, grande verdade.
    só que estes fracos reis que temos tido não estão lá por indicação divina mas eleitos, e pior mantidos, pelos sócios.
    e nos últimos vinte e oito anos só um dos presidentes não foi péssimo, vilarinho, os outros foram uma completa desgraça.

    Gostar

  2. O que vem do coração tem sempre valor.
    O Benfica é o Benfica, só há um, e se temos de honrar o passado, não nos esqueçamos que ele fica no passado, e a partir de agora, a partir de cada dia faz-se sempre Benfica, porque esse nunca morre nem morrerá, enquanto houver um benfiquista que grite – “Benficaaaaaaaa”!

    Gostar

  3. Obrigado por este texto sentido, Benfiquista.
    Partilho na totalidade os sentimentos e valores que expressou no seu texto.
    Nao sei mais o que diga ou faca em relacao ao que se passa no nosso amado SLB.
    Triste, envergonhado, impotente e como me sinto.

    Gostar

  4. Cláudio, pena esse texto não dizer já nada a muita alminha que se diz Benfiquista.
    Gente que ao ver um pato-bravo subir meteóricamente na vida, faz dele um exemplo não se importando em que foguete se sentou para tal resultado.
    E quando se sabe que foi na vigarice, ainda se considera mais a esperteza do bicho, no caso, do pulha!
    Carlos, discordo dessa classificação dada ao Vilarinho!
    Foi o testa-de-ferro dos bancos e dos construtores para se apoderarem do Glorioso e que saltou fora para a entrada do apaniguado do corrupto-mor que levou o Clube ao estado actual!
    Até hoje, ouviste ou leste algo em que o Vilarinho se desmarca do pulha do palheiro?

    Gostar

    1. vamos ver não ser péssimo não é ser bom.
      primeiro foi o único que se chegou à frente para mandar de lá para fora o vale, é que mais ninguém se chegou e isso tem de ser dito.
      ele não saltou fora fez o seu mandato, e o seu propósito que era tirar o vale, e depois deixou o caminho para outros, até porque ele não tinha vida para se poder lá se manter, nesse aspeto a culpa não é dele não ter aparecido mais ninguém para pegar no clube.

      sim é o grande culpado de ter metido o iluminado, por acaso a conselho do simões, mas é ele o culpado do iluminado lá ter ficado dezoito anos, ai a culpa é dos sócios que votaram nele não é do vilarinho.
      e onde é que ias buscar dinheiro se não fossem os construtores e os bancos, tinhas o dinheiro a onde mesmo.
      até acho que o grande erro foi não ter esperado pela decisão judicial dos direitos televisivos agora os construtores e os bancos até um borges coutinho tinha de os suportar naquela altura porque não tinha alternativas.

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s