Crónicas de um desesperado – O triste sabor da indiferença

O fracasso dói, mas o que mais custa é não ver a luz ao fundo do túnel. É assim que me defino perante o Benfica atual. Ao longo dos anos, habituei-me a estar do outro lado da barricada. Contudo, até nos piores momentos havia sempre qualquer coisita que nos ia alegrando e a que nos podíamos ir agarrando. Ora era porque íamos tendo alguns momentos de glória no futebol para nos matar a fome, ora era porque nas modalidades entrávamos sempre para ganhar e não apenas para marcar presença, ora era porque conseguíamos fazer uso da nossa força para derrubar o sistema (por exemplo golpeando a Olivedesportos), ora era, simplesmente, porque somos o Benfica, um clube de honra, exigência e valores. Mas hoje…

… hoje, no futebol, temos uma equipa sem referências. Temos uma equipa recheada de jogadores que ou são maus ou não dão tudo quanto têm, ou, pior, ambos. Hoje, temos um Benfica onde ter ídolos, daqueles que reúnem magia nos pés e sangue Benfiquista, é coisa proibida, pois os poucos que aparecem duram 6 meses ou nem isso.

… hoje, temos um treinador que é quem mais dá a cara mas que não nos representa. Um treinador a quem lhe falta noção, um treinador com uma basófia que já ninguém atura, um treinador que nos humilha de cada vez que abre a boca, destratando qualquer um que aponte o óbvio, seja um mero adepto, sejam velhas glórias do Olimpo Benfiquista.

… hoje, temos um Benfica onde uma eliminação da Champions é vista com alívio porque na piscina dos pequeninos temos mais hipóteses de chegar à final. Um Benfica onde qualquer mija-na-escada de um campeonato periférico nos verga. Um Benfica onde se festejam derrotas por números pouco expressivos contra um qualquer “tubarão europeu”, porque, afinal de contas, podia ser pior.

… hoje, temos modalidades só para se dizer que existem. Temos secções repletas de tachistas e acomodados, secções onde a ambição não grassa e onde os títulos são para os outros.

… hoje, temos uma democracia baseada no “acreditem na boa vontade de quem manda”. Uma democracia onde pedir transparência é crime de lesa-pátria, uma democracia faz-de-conta porque achar que pode haver Benfiquistas mal-intencionados é ser inimigo do Benfica.

… hoje, temos um departamento de marketing/comercial cuja preocupação una é sacar dinheiro aos apaixonados pelo Benfica. Temos preços completamente desajustados da realidade portuguesa, e até coisas simples que poderiam ser feitas com o propósito de aproximar a equipa dos adeptos, como os conteúdos da BenficaPlay, são acessíveis apenas a quem abanar com a carteira (já nem falando que estão transformados em objetos de propaganda). Temos, enfim, um Benfica para clientes, um Benfica para ricos, um Benfica onde quem é ralé não tem lugar.

… hoje, vemos um culto de personalidade de fazer corar de vergonha alguns dos mais afamados regimes. Nenhum sucesso escapa, desde Taças da Liga das modalidades a pequenos e irrelevantes destaques em imprensa estrangeira, nem muito menos escapa nenhuma entrevista ou espaço de comentário de qualquer profissional ou ex-profissional do Benfica, tudo tem que ter um bigode farfalhudo como marca de água, sempre presente e sempre à vista.

… hoje, temos uma comunicação voltada para um homem e não para um clube. Feroz sempre que o nome de Vieira aparece nas manchetes, inexistente enquanto o nome Benfica é arrastado na lama.

… hoje, temos um presidente de rabo preso. Temos um presidente que não tem apenas telhados de vidros, tem toda uma casa envidraçada. Temos um presidente que sabe que se levantar muito a garimpa rapidamente é posto no lugar. Hoje, temos um líder, como diz o povo, preso pelos tomates. Não o estivesse, perante a devassa inédita de toda a correspondência eletrónica, o Benfica teria respondido à altura, no limite com processos de espionagem industrial. Por seu turno, do presidente do Benfica e dos súbditos vimos apenas um esforço constante para que os Benfiquistas não separem o trigo do joio, isto é, para se a pessoa Vieira e a instituição Benfica se promiscuam, pois enquanto assim for, Vieira passa pelos pingos da chuva. Ou seja, temos um presidente não só tem optado por deixar o Benfica ser espezinhado como contribui ele próprio para isso.

… hoje, temos um clube que é comido por todos os lados. Um clube que vê Liga, Federação, Arbitragem, imprensa desportiva e tudo o resto dominado por antis, mas que não só assiste impávido e sereno como aperta a mão a todos esses antis. Temos um clube incapaz de pôr um único assunto no espaço mediático. Um clube onde amor-próprio é coisa que ninguém vê ou sente.

… hoje, temos um Benfica onde se aceitam tranquilamente arguídos em casos de toda a ordem, porque, afinal de contas, “toda a gente tem processos”.

… hoje, vemos um homem que outrora idolatrávamos a servir de cão de loiça, incapaz de exercer com eficácia um magistério de influência que poderia causar forte impacto. Em simultâneo, vemos uma máquina de comunicação a fazer dele um sucessor, como se o status quo fosse motivo de orgulho.

… hoje, temos um Benfica que ostraciza quem se digna a levantar a voz. Um Benfica onde Paneiras ou Bernardos são tratados como lixo e onde Pachecos são considerados velhas glórias. Um Benfica em que o idiota é o indivíduo que gritar que o rei vai nu. Um Benfica de e feito por Pedros Guerras, Boaventuras e Capristanos.

… hoje, temos um Benfica onde a exigência é nula. Temos um Benfica assente no lema “ganhar ou perder é desporto”. Um Benfica que “tenta ganhar”. Um Benfica de desculpas esfarrapadas. Um Benfica alimentado a betão e vendas recorde e não a vitórias, porque é do betão que temos de sentir orgulho. Temos um Benfica que perdeu a essência e a identidade, quiçá irremediavelmente.

… hoje, temos um Benfica em que nos vendem sonhos mas apenas nos dão pesadelos.

… hoje, temos um Benfica onde definitivamente já se aprendeu a conviver com o insucesso.

… hoje, temos um Benfica que não tem ponta por onde se lhe pegue.

A minha última esperança era de facto Jorge Jesus. Esperava muito dele, não porque gosto do homem, mas por reconhecer que, dentro da limitadíssima shortlist de treinadores de Vieira, era um dos poucos com qualidade acima da média. Esperava muito dele, não porque gosto da bazófia, mas porque achava que o carisma dele era necessário para agitar as águas. Enfim, conhecendo Vieira, vi em Jesus a única possibilidade de mudança. Contudo, não veio o Jesus que eu esperava. Veio um Jesus apático, incapaz, medroso, meloso… Veio um Jesus que passa mais tempo a falar na ex e no quão feliz com ela estava. Veio um Jesus vieirado. Assim, a única réstia de esperança que havia de ver um Benfica pujante no contexto atual eclipsou-se antes sequer de dar um pequeno fruto que fosse. Não obstante, a liderança de Vieira está sólida e sólida continuará pelo menos durante mais 4 anos. E que ninguém se iluda: este não é o mandato desportivo, este é o mandato para varrer todo o lixo (e ele é muito) para debaixo do tapete. Conquistas desportivas ou institucionais? Serão mero fruto do acaso, e é se o acaso quiser alguma coisa connosco.

Assim, não há chama que aguente. O meu Benfiquismo? Continua intocável e, perdoem-me a imodéstia, inatacável. Só que este não é o meu Benfica. É de facto um clube que passeia umas camisolas com um emblema do Benfica estampado (aliás, hoje em dia nem isso), mas se há coisa que isto não é, é o Benfica que mobilizava milhões, que parava guerras, que unia o que tudo o resto desunia. Pelo contrário, este é um benfiquinha que só serve para alimentar mamões. Por isso, porque é que nós continuamos a sofrer? Talvez daqui a uns tempos, quando conseguirmos salvar este nosso amor, essa chama se reacenda. Por agora, aqui me confesso: estou resignado.

É o triste sabor da indiferença. É o triste sentimento de um desesperado que já perdeu a esperança.

7 thoughts on “Crónicas de um desesperado – O triste sabor da indiferença

  1. Olhemos para a situação como se fosse um caso de divórcio.
    Tantos anos feliz com uma pessoa a quem achamos que demos tudo e, de repente, essa faz tudo para se afastar de nós.
    Porque outros lhe acenaram com algo que ela não quer perder.
    Das duas, uma!
    Ou continuamos a chorar na esperança que tudo se recomponha (mesmo sabendo que não, que esse tempo não volta mais) ou levantamos a cabeça, respiramos fundo, e abrimo-nos para muita coisa que o mundo nos pode dar e que, assoberbados pela relação vivida, não tínhamos tempo para desfrutar.
    Estou nesta!
    Dou uma zanzada pelos blogues apenas para perceber como vai a cruxificação das árvores em vez de se queimar a floresta, dou uma fungadela tipo nada de novo e vou até à Netflix, ao Hesgoal, ao noticiário, à estante dos livros, ás mensagens para os amigos ou uma volta pelo parque se não chover.
    O resultado o jogo com os lagartos soube-o no dia seguinte porque um colega de trabalho, venezuelano, que gosta de apostar, me agradeceu a dica e apostou na vitória dos sapos.
    Haja saúde!

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    1. É muito isto. Mas, complementando um pouco a analogia, nós (pelo menos falo por mim) nunca deixaremos de amar o/a ex. Por isso, se um dia ele/a se fartar dos “outros”, se quiser voltar para nós e voltar a ser como era, o casamento recomeçará como se nunca tivesse acabado. Até lá, porque de facto nós continuamos a gostar muito dele/a, vamos arranjando forma de expor os “outros”, mesmo que ele/a não nos ligue nenhuma. Pode ser que um dia abra os olhos.

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  2. Boa noite. Meu caro, estou totalmente de acordo. Sou um sócio pagante, ou aos olhos da direção – a minúscula é propositada – um cliente pagante, portanto, um bom cliente. Quando o Benfica perdia, o meu Pai não jantava e eu herdei esse Benfiquismo. Agora janto antes dos jogos. Sofro como nunca. Quero ajudar e quero muito. Fui votar nas últimas eleições à Casa do Benfica em Évora e posso dizer que foi um ato cívico democrático e pleno de um sentimento de puro Benfiquismo. Não votei nesta direção, nunca o poderia fazer em consciência. Duvido e muito dos ditos 63% de votos na lista que dizem ter ganho. Foi um atentado a todos nós, sócios. Como posso ajudar? Quando o jogo termina, também sinto alguma resignação, mas não pode ser assim. Só resignação, não chega, não é suficiente. Eu quero mais para o meu Clube do coração. Creio e sinto que é preciso alguma ação. Estou disponível para ajudar, mas não sei como. Só vejo o Movimento Servir o Benfica a tentar remar contra esta maré. Sinto que se não fizermos nada, o Clube pode verdadeiramente perder-se. Estou no Alentejo, estou longe, mas tenho o Benfica no coração.

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