O exemplo do Sporting 20/21 e as ilações que há para tirar

Geralmente, a receita para o sucesso passar por olhar mais para dentro e menos para o vizinho. Quem passa a vida preocupado com o vizinho, normalmente, perde o foco e comete erros por desnorte. Contudo, não se deve fechar os olhos aos bons exemplos, e deles se deve tirar lições.

Noutros anos, cegas por equiparar-se ao evidente maior poderio de Benfica e Porto, as várias direções do Sporting gastavam o que tinham e o que não tinham para se chegar perto. No plano financeiro, tal era um desastre em potencial, que só não tem mais consequências hoje porque se trata de um clube grande. No plano desportivo, era um tiro nos pés, porque mesmo investindo-se muito, qualitativamente, permaneceriam sempre abaixo de Benfica e Porto, pelo que, mesmo havendo mais chances de sucesso, o mais provável continuava a ser ficar-se com o 3º lugar de sempre mas com uma fatura muito maior. Este ano, se calhar mais por obrigação fruto das dívidas que por convicção, os sportinguistas fizeram de maneira diferente. Gastaram pouco e construíram um plantel para o médio/longo-prazo e não para o agora.

Mas, mais importante que isso, construíram uma equipa. Ao invés de investirem milhões em “oportunidades de negócio”, investiram no que é essencial, suprindo lacunas, e é neste ponto que se destacam do Benfica. Obviamente que a minha opinião é sempre subjetiva e passível de contraditório, mas, olhando ao plantel do Sporting, apenas 3 ou 4 seriam os nomes que seriam titularíssimos no Benfica. Senão vejamos:
1) É Adan melhor que Vlachodimos? Embora o espanhol tenha alguma qualidade, não acho, muito pelo contrário. 2) A dupla de centrais é melhor que a do Benfica? Não é, de todo, e arrisco-me a dizer que, entre os melhores centrais do Sporting – Coates e Feddal – e o pior titular do Benfica – Otamendi -, prefiro o argentino. 3) Entre Nuno Mendes e Grimaldo, embora o miúdo do Sporting ainda tenha que provar a sua qualidade num contexto mais forte, ele tem muita qualidade, por isso diria que está ela-por-ela. 4) Porro, ele sim, é mais forte que qualquer um dos laterais direitos do Benfica. 5) Vários médios do Sporting seriam titulares no Benfica, com Palhinha e Pote à cabeça, muito por culpa de não termos um único 8 digno desse nome, mas seriam sempre no máximo parceiros de Weigl. 6) A não ser que se considere Pote mais extremo que médio ofensivo, e embora João Mário e Nuno Santos tenham qualidade, nenhum extremo sportinguista é, a meu ver, melhor que Everton ou Rafa. 7) Entre Darwin e Luka e qualquer um dos avançados do Sporting, há um mundo de diferença. Resumidamente, só em duas posições é que o titular do Sporting é de forma muito clara mais forte que o do Benfica.

Porque é que o Sporting joga melhor que o Benfica então? Porque tem um grupo equilibrado. Tem uma equipa e não um grupo de craques. No Benfica, gastou-se muito, gastou-se por vezes para posições onde não era preciso, e no final acabou-se por não se suprir todas as lacunas da equipa. No Sporting, embora claro haja sempre os “elos mais fracos”, nenhuma lacuna ficou sem um reforço, mesmo que os reforços tenham sido low-cost. Cumulativamente, a equipa foi construída ao estilo do treinador, enquanto que no Benfica ficaram/chegaram jogadores que claramente não se encaixam no que o treinador quer/gosta.

O Sporting tem muitos problemas a vários níveis. Tem problemas financeiros graves aparados por um sistema bancário que lhes é muito benevolente, tem problemas políticos profundos dada a clivagem enorme entre adeptos, e tem bastantes lacunas organizativas que se agudizam direção após direção. Mesmo desportivamente, este ano, o sucesso não está garantido, afinal de contas, com uma equipa tão jovem e inexperiente, há sempre o risco da equipa quebrar mentalmente. E, se tal acontecer, acho que os sportinguistas devem ter alguma complacência, pois, dadas as diferenças de contexto, já é de si surpreendente o quão competitiva a equipa tem sido face ao Benfica e ao Porto. No fundo, o Sporting demonstrou este ano que não é preciso gastar-se muito, é preciso gastar-se bem. Assim, honra lhes seja feita, que se olhe para eles e tire uma lição:

Vale mais uma equipa que um grupo de individualidades.

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