Overview sobre o programa de Rui Gomes da Silva

Rui Gomes da Silva apresentou o seu programa, que sustenta a sua candidatura à presidência do Benfica. Para quem ainda não o leu, é possível ler aqui: https://www.ruigomesdasilva2020.pt/programa . RGS dividiu o seu programa em 5 pilares estratégicos. Nesta pequena análise, vou tentar manter-me fiel à sua estrutura.

1. Futebol profissional. A visão de RGS para o futebol é uma visão ambiciosa. Da maneira como está escrito o programa, a sua visão é até um bocado utópica. Se esta utopia for uma forma de criar um estado de espírito ambiciosa e uma mentalidade ganhadora, estou de acordo. Se for escrito para se ser interpretado à letra, temo que pudesse levar a um deslumbramento que, ao invés de benéfico, tenha o efeito oposto. No geral, excluindo esta reserva, o programa é adequado, pois toca nas várias feridas da gestão de Vieira e apresenta soluções para as mesmas.
1.1. A política de mercado que RGS defende para as contratações é exatamente aquela que se quer. Contratar menos mas contratar melhor. Não depender de um empresário apenas, mas ao mesmo tempo não ostracizar ninguém, coexistindo de forma sã com os mesmos. Aumentar a influência do scouting. Não ter medo de contratar jogadores experientes a custo zero se estes forem mais valias evidentes. Nada a apontar aqui, pelo contrário.
1.2. “Sustentabilidade financeira através de receitas operacionais e não através da venda de talentos”. Não me interpretem mal, adoraria que esta ideia fosse possível. No entanto, temos que ser realistas: as receitas operacionais, num mercado como o português, infelizmente, não são suficientes se o Benfica quiser ser competitivo a nível europeu. Para tais objetivos, o Benfica precisa de investimentos superiores às receitas operacionais, pelo que isso só é possível vendendo jogadores. RGS também escreveu “formar para reter e não para vender”, e é por aqui que as coisas têm que mudar. Começar por segurar os miúdos mais do que apenas 6 meses seria um bom princípio. Em suma, a mentalidade de que conseguimos sobreviver ao nível que é exigido sem deixar jogadores a não ser pela cláusula é algo que considero irrealista. O desejado é, a meu ver, um meio tempo com a situação atual.
1.3. RGS propõe aquilo que parece uma mini-revolução na estrutura. Propõe que haja um diretor de futebol com poderes efetivos, propõe cortes nas gorduras da estrutura, propõe mudanças no scouting, entre outras coisas. Sobre a ideia de diretor de futebol, honestamente, não tenho opinião. Agrada-me que quem decida sobre o futebol tenha competências técnicas para tal, mas não tenho opinião sobre se esta é a solução mais eficiente. Sobre as restantes ideias, nada a dizer, concordo em absoluto.
1.4. Lutar por um Benfica mais poderoso nas instâncias deportivas devia ser um objetivo de qualquer direção. RGS fala do assunto, mas não concretiza.
1.5. A aposta no futebol feminino é algo que merece a menção, dado que as sugestões são muito pertinentes. Não subscrevo todos os vários pontos, mas, na big picture, gosto da visão de RGS para o feminino, a começar no facto de tornar o futebol feminino parte da SAD, como aliás já escrevi no passado.
1.6. O último ponto que menciono é o menos relevante na estratégia do futebol profissional, mas é importantíssimo para criar uma cultura de clube, que se prende com o respeito pela figura de Eusébio, valorizando-se a Eusébio Cup para esse sentido.

2. Futebol de formação. RGS propõe uma formação focada na componente desportiva mas também na parte mais humana, partindo das bases já construídas. Por outro lado, propõe várias mudanças na parte final do processo formativo, as quais acho desapropriadas.
2.1. Concordo totalmente com a mentalidade que há que aproveitar o trabalho meritório de Vieira. Como já referido acima, também concordo com a ideia de investir no scouting.
2.2. Uma outra proposta de RGS visa incluir velhas glórias nas equipas técnicas da formação, que pudesse incutir cultura de Benfica nos miúdos. É uma excelente proposta, não só por incutir essa cultura de Benfica, mas também porque ajuda a fomentar o amor ao clube, o que pode ajudar até a segurá-los no clube em fases mais adiantadas da sua carreira.
2.3. Sobre a passagem da formação para a SAD, não tenho opinião. O argumento de RGS de libertar fundos do clube para as modalidades é interessante, embora seja meramente brincar com os números, pois é muito fácil transferir fundos da SAD para o clube através, por exemplo, do aluguer do estádio.
2.4. No final da formação, RGS propõe que se acabe com uma das equipas, os sub23 ou a equipa B, investindo numa política de empréstimos. Mesmo pressupondo que é óbvia a escolha entre que equipa acabar, estou em profundo desacordo, por várias razões.
1) A existência de duas equipas permite que, quando existirem dois jovens muito promissores que sejam incompatíveis em campo, haja espaço competitivo para os dois em simultâneo, sem ter que abdicar de um. 2) Uma equipa sub23 permite também que júniores possam contactar com jogadores mais velhos numa fase muito mais embrionária da carreira, algo muito útil para que o choque entre passar de uma equipa de júniores para uma sénior não seja tão grande. 3) Os anos anteriores têm demonstrado que a maior parte dos miúdos talentosos não precisam de nenhum passo intermédio entre a equipa B e a equipa principal. 4) Um empréstimo não significa perder um jogador de vista, mas de certa forma não há controlo total sobre o mesmo. Enquanto numa equipa B, há espaço para o jogador falhar, num empréstimo, esse espaço é diminuto, o que pode comprometer a formação dos jogadores. 5) Um plantel principal curto exige uma 3ª linha composta por miúdos da equipa B. Se a etapa final da formação for fora do clube, isso significa que os miúdos mais preparados não estarão ao dispor. 6) Numa altura em que a própria FIFA pretende cortar seriamente as políticas abusivas de empréstimos, focar uma política de formação nos mesmos é pouco inteligente.
Em suma, sobre este ponto, acho que o processo formativo tem de ser focado para terminar na equipa B. É claro que há sempre lugar para empréstimos. Há sempre jogadores talentosos que precisam desse passo intermédio entre o futebol sénior per se e o futebol sénior exigente do Benfica. Por causa dos 6 pontos suprareferidos, discordo da visão estratégica de RGS.

3. Democratização e alteração de Estatutos. Este é um ponto no qual todos os candidatos estão a tocar, o que devia pelo menos despertar o Benfica, como um todo, para uma discussão profunda. No geral, neste pilar, as propostas são bastante pertinentes, mas nem sempre são adequadas ou providas de lógica.
3.1. Ajustamento do número de votos consoante a antiguidade. Por outras palavras, 1 ano de sócio = 1 voto. Para mim, não faz sentido. Há muitas razões para eu achar esta ideia um disparate, que ainda consegue ser pior que o modelo atual, mas vou apresentar apenas um argumento. Gente jovem, com visões diferentes da vida, traz consigo sempre ideias frescas. É imoral rebaixar a militância irreverente jovem ao escrutínio quase ditatorial de uma minoria de gente mais velha. A antiguidade traz experiência, que é essencial à tomada de posições e decisões, que deve ser obviamente materializada em mais poder e portanto mais votos, mas há um limite que nunca deve ser passado, caso contrário, o clube corre o risco de ficar demasiado tempo agarrado a visões ultrapassadas de velhos do Restelo.
3.2. Revisão das condições de elegibilidade do presidente e dos demais membros dos órgãos sociais. De destaque, RGS sugere de reduzir para 15 anos de sócio efetivo o limite mínimo para uma pessoa se poder candidatar à presidência de qualquer órgão social. Estou de acordo em parte, só discordo da necessidade de se ser sócio efetivo, pois defendo há muito a equiparação de direitos entre sócios efetivos e correspondentes.
3.3. Robustecimento do processo de voto eletrónico. Implementação do sistema eleitoral a duas voltas, sempre que não se verifique a eleição de uma lista com maioria absoluta. Limitação de mandatos do presidente a 2 consecutivos de 4 anos. Totalmente de acordo.
3.4. RGS propõe ainda uma estratégia para melhorar a comunicação do Benfica, que envolve necessariamente a contratação de profissionais que juntem competência a Benfiquismo. Noutras áreas do clube, ser competente pode chegar. Por exemplo, um dos mais importantes e influências jogadores do século, Simão Sabrosa, não era reconhecidamente um Benfiquista. No entanto, na comunicação, o caso muda de figura, pois só quem sente o Benfica a sério é que consegue passar os sentimentos e emoções adequadas para os demais sócios e adeptos. Uma comunicação desprovida de Benfiquismo é uma comunicação sem sal, que tem como consequência uma massa adepta cada vez mais amorfa. Por isso, esta é uma excelente proposta
3.5 RGS inclui ainda propostas bastante pertinentes sobre a gestão do museu e da história do Benfica, que sem dúvida alguma devem ser debatidas e/ou consideradas.

4. Modalidades e Benfica eclético. Rui Gomes da Silva sempre foi uma pessoa com interesse e paixão pelas modalidades, pelo que surpreende pouco que, neste pilar, RGS tenha um programa quase irrepreensível. Muito resumidamente, RGS propõe que se mantenham em vigor as várias boas práticas do Benfica atual, e propõe uma série de mudanças sobre aquilo que está mal.
4.1. O Centro de Alto Rendimento é um projeto que está planeado há vários anos por parte do Benfica, embora, até ver, não passe do papel. RGS propõe avaliar a construção do mesmo. Não sendo bem claro o que ele quer dizer, eu suponho que a proposta seja no sentido de acelerar a sua construção, desbloqueando impasses de longa data. Se assim for, estou 100% de acordo. Se eu estiver a interpretar as palavras ao contrário, estou 100% em desacordo.
4.2. A construção de bases nacionais nas várias modalidades é um dos pontos que RGS mais foca, seja através de scouting eficaz, seja através da formação. Há que melhorar em ambos, por isso são propostas bem vindas.
4.3. Uma proposta que gostei particularmente foi a criação de laboratórios para as modalidades, o que é algo que complementa o CAR. A ciência e tecnologia cada vez mais estão a revolucionar a forma como se faz desporto, pelo que, em modalidades onde por vezes a diferença está nos detalhes, ter a ciência do nosso lado pode fazer a diferença. No fundo, isto é seria um grande salto na profissionalização dos nossos atletas, o que é uma proposta de salutar.
4.4. RGS propõe também uma avaliação à reintrodução do ciclismo, mesmo reconhecendo que é uma modalidade cara e que para isso precisaria assim de um parceiro estratégico. Estou de acordo. Acrescento ainda que, pessoalmente, defendo parcerias estratégicas noutras modalidades, algo que nos permitisse fundos extra para investir (veja-se o caso do Porto no andebol).
4.5. “Marcação dos jogos das modalidades em consonância com os jogos de futebol”. Esta é outra proposta que defendo há anos. A melhor maneira de encher os pavilhões é aproveitar as pessoas que vão ao futebol. O Pavilhão Nº1 tem 2400 lugares, pelo que enche-lo constantemente com parte das 50000 pessoas que costumam ir aos jogos de futebol devia ser uma ambição. Junte-se a esta proposta a criação de packs promocionais para a compra de bilhetes duplos para jogos consecutivos das modalidades e de futebol, e certamente os pavilhões estarão bem mais cheios.

5. Finanças, Internacionalização e Benfica SAD. O diagnóstico feito por RGS na parte das finanças e na parte da marca do Benfica é bem feito. Na ótica de mudança, são 21 as propostas de RGS neste pilar estratégico. Mais uma vez, regra geral, são boas propostas, mas há algumas que não fazem muito sentido.
5.1. RGS sempre foi um dos principais impulsionadores de se cortar relações com a Sport TV, o que veio a acontecer há uns anos. No entanto, pouco depois, venderam-se os direitos televisivos à NOS, o que foi um erro crasso. Hoje, temos de pagar duas subscrições se quisermos ver todos os jogos do Benfica no campeonato e, ao contrário dos nossos rivais, temos de pagar para ver as modalidades. RGS propõe a criação de uma BTV2 gratuita para as modalidades e para o futebol de formação, o que é uma boa medida, e uma avaliação do contrato com a NOS, o que a meu ver, infelizmente, parece-me impossível, dado que o mesmo acaba para lá do próximo mandato. Propõe ainda a criação de uma plataforma de streaming e uma maior força do Benfica no Youtube, com (suponho eu) a abolição da BenficaPlay.
5.2. Sobre o merchandising, a proposta de RGS é ambiciosa mas, a meu ver, é desnecessária. RGS propõe a criação de uma marca própria para os equipamentos desportivos, o que permitiria acabar com os muitos problemas que temos tido com a Adidas ao nível do design e dos preços absurdos do merchandising. No entanto, acho, como disse, desnecessário, pois o que não faltam são marcas que não a Adidas que poderiam trabalhar com o Benfica de forma bem mais vantajosa para nós. Trabalhando com uma marca establecida no mercado, temos sempre uma máquina de marketing global e bem oleada que pode fazer o trabalho duro por nós, sem precisarmos de tornar a estrutura do Benfica mais pesada e mais suscetível a jogos de influências dos nossos dirigentes.
5.3. RGS propõe aquilo que ouvimos DSO dizer há anos sem materializar, nomeadamente, a venda do naming do estádio. Propõe ainda uma renovação da fachada do estádio bem como do espaço circundante, com a substituição do cinzento por imagens históricas do Benfica. Estou de acordo, ficou só a faltar uma menção ao interior do estádio, que também precisa e muito de uma renovação.

Em suma, considero ainda que o diagnóstico que RGS faz do Benfica é bastante preciso, pois há um toque em quase todas as feridas e cicatrizes. De forma avulsa, diria que são bem mais os pontos que subscrevo do que aqueles que não subscrevo. Ainda assim, coloco algumas reservas pois há alguns pontos estratégicos que, a meu ver, simplesmente não fazem sentido. Se nalguns casos, como é a questão dos estatutos, tudo aquilo é passivo de discussão entre os Benfiquistas, o plano estratégico global a adotar não é bem assim, pois se esse plano ganhar eleições, é porque foi o desejo dos Benfiquistas. Não é por causa destas reservas que dou nota negativa ao programa de RGS, que me parece claramente um upgrade ao que temos no Benfica hoje, mas claro, ficaria bem mais contente se não as tivesse. Seja como for, é um bom ponto de partida para estas eleições. Ficarei a aguardar pelos programas dos restantes candidatos.

3 thoughts on “Overview sobre o programa de Rui Gomes da Silva

  1. Alguns pontos interessantes, mera cosmética, outros desastrosos. Não justifica a mudança. Apenas para ele e para os seus acompanhantes, para o tacho.

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