Carta aberta a Bruno Lage

Caro Bruno Lage,

Não me esqueço que quando chegaste ao Benfica B, fiquei contente, porque estava a regressar a casa um treinador jovem, talentoso, e que de facto sabia o que era o Benfica, porque o viveu por dentro durante muito tempo.

Também não me esqueço que quando pegaste na equipa principal, a equipa estava completamente despedaçada e que qualquer esperança de discutir o título seria, por si só, um milagre.

Por isso, não me esqueço do que foste capaz de fazer no ano passado. Sim, é verdade que houve o efeito Félix e o efeito chicotada, mas os bons jogadores não rendem, não batem recordes, ainda por cima num modelo radicalmente diferente, sem que haja um bom treinador por detrás. Por isso, que ninguém te tire o devido mérito.

Caro Bruno, mas se o bom futebol era algo refrescante, o que eu mais gostava em ti era o discurso de exigência constante, um discurso À BENFICA!

Não me esqueço também que, pela primeira vez em muitos anos, vi uma pessoa de destaque no Benfica que sabe a história do Benfica, que sabe o que representa o Benfica, e que não tem medo de o demonstrar, suportando-se em figuras históricas como o Jaime Graça.

Pode-se dizer o que quiser, mas eu vi um Benfica mandão, um Benfica à Benfica, que chegou ao Dragão e, em vez de se “acagaçar”, mostrou a raça de que é feito.

Não me esqueço de nada disto…

Mas, Bruno, também não me esqueço de como foste comido e te deixaste comer no verão. E se isso pode não ser culpa tua, é claramente culpa tua teres compactuado com isso, quando podias ter feito muito mais, pois estavas no topo do mundo…

Não me esqueço que, certamente com ordens do dono do Benfica, preferiste meter os miúdos, claramente impreparados, na montra da Liga dos Campeões ao invés de jogares com os melhores, com as consequências que todos sabemos.

Não me esqueço da tua teimosia com algumas vacas sagradas.

Não me esqueço porque foi por causa disto que perdeste o balneário, e foi também por isto que chegámos ao ponto que chegámos.

Meu caro, não me esqueço que nos últimos meses foi deprimente ouvir o teu discurso, que nada tinha a ver com o do ano passado… Compreendo, o desgaste e a pressão a que estavas sujeito não é certamente fácil de aguentar e de gerir, mas como adepto, confesso-me traído.

Enfim, não me esqueço que se o Benfica hoje está muito mal, também tens alguma culpa.

Mas, lá no fundo, tenho pena. Tenho pena de ti, porque merecias mais. És um treinador jovem, tens ainda muitas lacunas técnicas (credo, como mexes mal no jogo…), e tiveste de assumir um barco a naufragar. Por isso, merecias uma estrutura forte, que reconhecesse que tens falhas e estivesse lá para as mascarar. Que estivesse lá para te aconselhar. Merecias uma estrutura que te protegesse, não uma estrutura que desaparecesse em alturas chave e te deixasse arder em lume brando para salvar o seu próprio couro. E tenho pena de mim e dos muitos adeptos como eu, que acreditavam/acreditam que o Benfica tinha em ti encontrado um diamante por lapidar, mas que viram isso ser deitado ao lixo sem contemplações.

Sinto que num Benfica pujante, no fundo um Benfica como todos nós queremos, as coisas teriam corrido melhor. No entanto, a vida é mesmo assim, e enquanto os problemas de base continuarem (ou neste caso de topo), sei bem que os Lages irão sempre, mais cedo ou mais tarde, fracassar.

Por isso, caro Bruno, apesar das deceções que me provocaste nos últimos tempos, obrigado pelas memórias, e tudo de bom para a tua carreira e para a tua vida. Aprende, evolui, sê humilde, e quem sabe um dia possas regressar a tempo de te redimir.

Um abraço!

5 thoughts on “Carta aberta a Bruno Lage

  1. Permita que faça minhas as suas palavras. Concordando com quase tudo, digo-lhe que apenas substituía “pena” por respeito. Quanto ao resto, dou-lhe os parabéns, não pelo seu benfiquismo que é intrínseco, mas pela sua sensibilidade, correcção e assertividade. Saudações benfiquistas

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  2. o grande problema do lage é o mesmo do tomas tavares, e de outros jogadores, chegou cedo de mais ao topo quando ainda não estava preparado para tal.
    e enquanto as coisas iam correndo bem, por diversos motivos uns por qualidade dele outros por um alinhamentos de factores e até pelo factor novidade, foi disfarçando os seus erros mas depois quando todos foram percebendo o que faz não teve a capacidade de se ir inventando.

    e como eu já disse varias vezes ter um plantel muito jovem em aprendizagem e ter um treinador também nas mesmas condições é uma combinação que tem tudo para correr mal.

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  3. Na minha opinião acho que o Lage começou a perder o balneário quando, depois do jogo no Dragão e onde fomos clara e inequivocamente roubados pelo Soares Dias, ele não disse nada do árbitro, não denunciou aquilo que todos vimos, não defendeu nem protegeu o seu próprio trabalho e o dos jogadores. E quer se queira quer não, os jogadores sentem isto. Sentem que foram totalmente roubados no seu trabalho, e que quem de direito não os defendeu. Com Rui Vitória passou-se o mesmo. Este tipo de treinadores que pensa que estamos no futebol inglês onde o fair play impera, não têm a mínima hipóteses de ficar muito tempo no Benfica. Mas para sermos muito sinceros, o Lage começou a perder tudo o que conquistou no discurso no Marquês quando foi campeão. Pedir respeito pelos adversários? Dizer que temos que reconhecer mérito quando os adversários ganham para que eles façam o mesmo? Mas em que mundo é que ele vive? Não pode ser no Portugal dos pequeninos onde quem não é do Benfica é um complexado anti-Benfica, de certeza…,

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