O que é um plantel à Benfica?

Há uns dias, escrevi como a mediocridade se tem vindo a apoderar do plantel do Benfica aos poucos, sem que tenhamos dado por ela. No entanto, não seria justo dissertar sobre isso e não dissertar sobre o que é, realmente, um plantel à Benfica.

Um plantel à Benfica, na verdade, é muito simples de explicar. Um plantel à Benfica, idealmente, tem 11 (ou quase) jogadores de grande qualidade (um para cada posição) e um grupo de jogadores menos capazes (chamemos-lhe jogadores medianos) com capacidade suficiente para, quando integrados num 11 com qualidade, não destoar. Pessoalmente, sou da opinião que os melhores planteis que o Benfica teve recentemente foram na época 2009/2010 (1º ano de Jorge Jesus), 2012/2013 (fatídico ano), 2013/2014 (1º ano do tetra) e 2016/2017 (ano do tetra). Vejamos os planteis desses anos.
* Em 2009/2010, o 11 base foi Quim, Maxi, David Luiz, Luisão, Coentrão, Javi Garcia, Aimar, Ramires, Di Maria, Saviola e Cardozo. Era realmente um 11 de enormíssima qualidade, do qual acho que só Quim destoa. Nesse ano, o nosso banco não era fantástico. Havia jogadores de qualidade, como Amorim, Carlos Martins, César Peixoto ou Nuno Gomes que acrescentavam valor, mas nada de extraordinário. No entanto, felizmente, como tivemos uma época tranquila no que a lesões toca, não foi muito grave não termos um banco forte.
* Em 2012/2013, o 11 base foi Artur, Maxi, Garay, Luisão, Melgarejo, Matic, Enzo, Salvio, Gaitan, Lima e Cardozo. Identifico dois jogadores medianos neste grupo – Artur e Melgarejo – mas mais uma vez, o 11 era muito forte. Desta vez, o banco de facto dava garantias. Havia Rodrigo, Jardel, André Almeida, Carlos Martins, Aimar, Nolito, os próprios Ola John e André Gomes funcionavam bem na altura, enfim, muito embora todos tenhamos ficado chocados com a vergonhosa destruição do meio campo com as vendas de Javi Garcia e Witsel no final ou já depois do final do mercado fechar, a equipa tinha muita qualidade.
* Em 2013/2014, foi para mim o melhor plantel que tivemos com Vieira na presidência. Oblak, Maxi, Garay, Luisão, Siqueira, Matic/Fejsa, Enzo, Markovic, Gaitan, Lima e Rodrigo, apoiados por um banco com Amorim, Cardozo, André Almeida, Artur Moraes (foi o primeiro titular da baliza), André Gomes, Jardel, Salvio, Sílvio…
* Em 2016/2017, o 11 base foi Ederson, Nelson Semedo, Lindelöf, Luisão, Grimaldo, Fejsa, Pizzi, Salvio, Cervi, Jonas e Mitroglou. Diria que destoam apenas Luisão e Salvio (já estavam em fim de ciclo) e Cervi. Em condições normais, diria também Pizzi, mas ele fez duas grandes temporadas nos dois primeiros anos de Rui Vitória, por isso é difícil catalogá-lo da mesma maneira. No banco, estavam Júlio César, André Horta, Eliseu, Zivkovic, Carrillo, André Almeida, Raúl Jimenez, Rafa, Samaris e, durante parte da época, tivemos ainda Gonçalo Guedes.

Saudosismos à parte, como é que se enquadra a aposta na formação com um plantel à Benfica? É simples. Continua-se com a filosofia de ter um 11 base com pelo menos 8 jogadores acima da média, sejam da formação ou não (e aqui é essencial ter discernimento para perceber quando é que um jogador da formação já atingiu este estatuto – por exemplo Rúben Dias e Félix – ou não – por exemplo, Ferro, Jota ou Florentino), e, sempre que possível, preenche-se os lugares destinados aos “jogadores medianos” que mencionei com jogadores da formação que estejam já nesse estatuto. Ou seja, os lugares que outrora eram de Carlos Martins ou Ola John, seriam dados aos miúdos da formação que já estão capazes. Ou seja, a ir ao mercado, contrata-se jogadores para serem indiscutíveis e, para preencher o plantel, há o Seixal. Só se o Seixal falhar é que se contrata também para preencher o plantel.

Como transpor isto para a prática no momento atual? Bem, é preciso, sem dúvida, algum sangue frio para relegar alguns jogadores com estatuto para o banco ou até para os vender.
* Na minha opinião pessoal, no plantel atual do Benfica, há apenas 5 jogadores de grande qualidade – Rúben Dias, Grimaldo (embora esteja numa forma miserável), Gabriel, Rafa e Raúl de Tomás. Eventualmente, poder-se-ia juntar Taarabt, que é algo débil fisicamente para assim poder ser categorizado, e Pizzi. Estes 5 jogadores tomariam 5 dos (pelo menos) 8 lugares que mencionei.
* A que “jogadores medianos” daríamos estatuto de titular? Bem, há 4 candidatos óbvios – Ferro e Florentino, por serem da formação e terem potencial para a curto prazo se juntarem ao grupo acima, e Pizzi e Almeida, por terem estatuto para se manterem. Sendo apenas 3 lugares, um destes teria de ser naturalmente suplente. Ficaram então por contratar 3 jogadores para o 11 inicial – um guarda-redes, um segundo avançado e um central/lateral direito/médio defensivo/extremo. Qualquer que seja a escolha, como backup, tem de haver sempre um jogador com com qualidade semelhante para que haja alguém que não deixe a equipa orfã da qualidade. Porque quando se substitui um grande jogador por um jogador menos bom, a qualidade do menos bom continua a ser suficiente para o Benfica. Quando se substitui esse jogador menos bom por um ainda pior, já não se pode dizer o mesmo.
* Para preencher o plantel, há três tipos de jogadores que teriam que ficar. O primeiro é o dos líderes de balneário – Jardel (que ficaria com a vaga de 4º central), Samaris/Fejsa (apenas um dos dois, o que faria de Florentino titular, dando-lhe um daqueles 3 lugares de “mediano” titular) e Seferovic, além dos mencionados Pizzi e Almeida. O segundo é o dos miúdos com qualidade suficiente para se assumirem como backups – Svilar/Zlobin (ou ambos, dado que um é titular da B), Nuno Tavares, Gedson e Jota. O terceiro é dos jogadores experientes com muita qualidade mas sem capacidade física para serem indiscutíveis, que neste momento se cinge a Taarabt.
* A partir daí, é uma questão de opções. Escolhendo Ferro para titular, era necessário haver alguém com a mesma qualidade para o substituir (Jardel não é esse alguém, será Conti?). Escolhendo Almeida, era necessário haver alguém com a mesma qualidade para o substituir (Tomás Tavares ainda não está pronto, Ebuehi obviamente está a mais). Escolhendo Pizzi, é necessário haver alguém com a mesma qualidade para o substituir (Cervi, Zivkovic, Jota e Caio não são esse alguém). Pessoalmente, teria escolhido contratar alguém para o lugar de Almeida, alguém que fosse uma solução a curto-prazo até Tomás poder assumir-se dono da lateral direita, mas qualquer escolha seria aceitável.
* Considerando que se contrataria para titulares um guarda-redes, um lateral direito e um segundo avançado, faltaria preencher que posições? Um substituto para Pizzi e um segundo avançado suplente, e eventualmente um central se Conti não contar. Chiquinho foi um bom reforço e parece contar para segundo avançado. Para o lugar de Pizzi, para poupar dinheiro, aceito que se tenha olhado para as soluções que já cá estavam, embora Caio+Cervi+Zivkovic (além de Jota) seja excessivo para ocupar os lugares de extremo suplente.
* Jogadores que não fariam parte plantel: Tomás cresceriam com calma na B, como estão a crescer Pedro Álvaro, David Tavares e Dantas. Odysseas, Ebuehi, Fejsa/Samaris (pessoalmente acho muito mais útil o grego), 1 ou 2 entre Caio, Zivkovic e Cervi. Além destes, Vinicius obviamente não tinha vindo, ou tendo vindo, seria para ocupar o lugar de Seferovic, que assim teria que ser vendido.

O exercício que fiz foi algo altamente pessoal, dado que é baseado totalmente na minha opinião. O exercício pode ser feito com outras escolhas e continuar correto. No entanto, não podemos enterrar a cabeça na areia. O 11 base do Benfica tem um défice de qualidade efetiva gritante e não foi feito trabalho no sentido de contrariar esse facto, muito pelo contrário. A gratidão tem sempre que existir, mas o Benfica tem de ser sempre o valor que mais alto se levanta. Não se esqueçam, até Eusébio foi dispensado, e no entanto era o Eusébio.

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2 thoughts on “O que é um plantel à Benfica?

  1. Bom post. Pode-se concordar ou não, mas uma ótima reflexão. Eu concordo com a maior parte do texto. Sim ao Seixal, mas com moderação.
    Saudações gloriosas,
    Tiago

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  2. na minha opinião, e já vem da pré época, falta um guarda redes, um central um lateral direito e um segundo avançado.
    sendo que os primeiros teriam de ser jogadores maturos, experientes e de qualidade.
    sendo os dois últimos não necessitavam de ser jogadores de maturidade mas teriam de ter experiência e qualidade.

    mas sejam qual sejam as opiniões, diferentes, de cada um o que salta à vista é que neste plantel falta maturidade, experiência e qualidade.
    isto tudo porque decidimos optar pelo dogma de que só a formação é que serve, que tudo na formação serve, e de todo e qualquer jogador contratado é para render financeiramente.
    quando o principal objectivo é que os jogadores deveriam render desportivamente e se depois também existisse rendimento financeiro óptimo mas pelos vistos optamos por inverter a prioridade.

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