Bruno Lage, o novo Rui Vitória? Uma reflexão.

Há já algum tempo que vejo nas redes sociais e na blogosfera algo profundamente inquietante. Desde o jogo contra o Porto, a nova moda é comparar Bruno Lage… com Rui Vitória. Porquê? Consigo apontar algumas razões, mas discordo em absoluto com a comparação. Mas vamos por partes.

Aquilo que Bruno Lage fez no ano passado fez no ano passado não pode nem deve ser considerado efeito de uma chicotada psicológica. E não deve porquê? Primeiro, porque uma chicotada psicológica tem efeitos apenas a curto-prazo, e o Benfica ganhou 18 jogos em 19. Segundo, porque aquilo que Bruno Lage fez foi revolucionar a equipa com uma série de protagonistas novos (Félix, Samaris, Gabriel, Ferro e Florentino à cabeça). Passámos a ver um Benfica mandão em todos os jogos, e mesmo naqueles jogos mais complicados, não perdíamos a essência de clube grande (excepto talvez nos últimos minutos contra o Porto, muito culpa de estarmos a jogar com menos um, e a segunda mão contra o Frankfurt). Posto isto, não há que ter medo em dizê-lo: Bruno Lage operou um verdadeiro milagre no ano passado, e é o grande responsável pelo mesmo.

Só que, passados alguns meses, alguns esquecem-se do que foi o Benfica de Rui Vitória. O culpado, no fundo, é também Bruno Lage. Colocou a fasquia tão elevada que as expectativas eram extremamente altas. Ainda para mais, abriu a época a dar chapa 5 a um rival. Passou cerca de um mês e meio, e indiscutivelmente o Benfica atravessa uma fase menos positiva. Perdemos contra o Porto, perdemos contra o Leipzig, ontem foi o que foi, enfim, não estamos bem. Mas será que a má fase deve ser comparada ao tempo de Rui Vitória? Pois, claro que não. Com Rui Vitória, quase todas as vitórias pela margem mínima foram vitórias na raça, sempre com o coração nas mãos. Com Lage, já este ano tivemos dois jogos em que não jogámos muito bem mas nunca pareceu que estivéssemos perto de perder o jogo (Belenenses e Gil Vicente). E porquê? Porque jogamos sempre como uma equipa grande, mandona em todos os momentos do jogo, de tal forma que adversários inferiores só nos criam perigo em jogadas de transição ou com erros individuais de jogadores do Benfica à mistura, e isso é algo cuja responsabilidade é unicamente do treinador. Não tenhamos dúvidas, com o Rui Vitória da 3ª e 4ª época, ontem não teríamos ganho, e contra o Belenenses ou contra o Gil Vicente teríamos acabado o jogo com o coração nas mãos, porque controlo de jogo era coisa que raramente tínhamos, a não ser que estivéssemos a golear.

Fora este fator, há ainda três pontos nos quais muitos vêem Rui Vitória em Lage. O primeiro prende-se com a sua personalidade calma. Raramente vimos Rui Vitória exaltado ou incomodado, nem mesmo depois de humilhações como em Basileia. Bruno Lage, neste aspeto, é semelhante, só que é mesmo apenas isso, uma semelhança, porque o discurso de Lage, apesar de calmo e ponderado, é um discurso inteligente, conhecedor e, excluindo algumas lacunas comunicacionais (absolutamente normais, diga-se), eu diria mesmo que é um discurso eloquente. Cada conferência de imprensa é um recital de bola, e a verdade é que, mesmo quando não se concorda com Lage, percebe-se exatamente o que ele pretende dizer. Não deixa de ser curioso que uma das grandes críticas que os Benfiquistas faziam a Jorge Jesus, e que agora é feita a, por exemplo, Sérgio Conceição, era a atitude de constante confronto, vista como deselegante e desprestigiante. Ora, Lage, que é o oposto disso tudo, é criticado, é apelidado de manso. Faz sentido? Para mim não, mas isto sou eu, que acho mesmo que Lage foi uma lufada de ar fresco para o futebol português…

O segundo ponto é a aparente incapacidade de obter da direção aquilo que quer. Lage foi claro nas conferências de imprensa que foi dando ao longo do verão. Queria um plantel curto, queria um guarda-redes, queria um médio para Gabriel não ter de ser indiscutível e queria que Félix não saísse. Félix saiu, guarda-redes e médio não vieram, e o plantel permaneceu extenso. Alguns (demasiados) culpam Lage. Dizem, mais uma vez, que é um manso como o antecessor, que é um yes-man, e são saudosistas para com JJ, relembrando a célebre conferência de imprensa em que JJ ameaçou bater com a porta se saísse mais um titular (Enzo Perez?). Será justo? Lage, nas conferências de imprensa, de forma inteligente, deu os devidos recados. Não colocou jogadores em xeque, não entrou em confronto com os patrões, enfim, foi inteligente nas declarações que fez. Contudo, para quem estivesse atento, a mensagem foi clara. É culpa dele que os seus pedidos não tenham sido acedidos? Não me parece. No entanto, para Lage não ser um yes-man, alguns acham que ele devia ter pedido a demissão (como se fosse sequer plausível um treinador na sua primeira experiência, que acontece logo num clube como o Benfica, pedir a demissão neste contexto), outros parece que acham que Lage devia ter dito à imprensa que alguns jogadores não tinham nível para o Benfica (perdendo assim o balneário). Enfim, a aparente incapacidade de Lage obter ovos da estrutura para fazer omeletes parece ser real, mas a culpa está a montante, não está em Lage, que para mim fez o que pôde.

Finalmente, o último ponto no qual Lage é comparado a Rui Vitória (e também a JJ) é a sua teimosia e a dificuldade em prescindir de jogadores em má forma. Aqui tenho que dar razão aos críticos, não vou contra-argumentar. Sou apologista que se um jogador, nem que seja a estrela da equipa, rende pouco, tem que ir para o banco. No entanto, para Lage, parece que há algumas “vacas sagradas”, e mesmo apesar das explicações (sustentadas, diga-se) que ele dá, aqui diria que merece a crítica, pelo menos na minha óptica.

Em suma, eu aponto estes quatro pontos como grandes causas da contestação que já existe a Lage: 1) expectativas muito altas, 2) personalidade calma a fazer lembrar Rui Vitória, 3) aparente incapacidade para obter o que quer da direção e 4) alguma teimosia. No entanto, é preciso cabeça nas críticas Lage. Muitos Benfiquistas, não necessariamente opositores da atual direção (o que foi inédito), no ano passado, conseguiram mandar Rui Vitória embora e com isso ganhar um campeonato. Sim, porque não fosse a pressão de milhares de Benfiquistas, nas Assembleias Gerais, nas bancadas do estádio ou nas redes sociais, Rui Vitória não tinha sido despedido, e mesmo assim ainda houve uma luz pelo meio. Só que essa estratégia não vai resultar sempre. Rui Vitória estava em claro fim de ciclo, nem devia ter começado a 4ª época à frente do Benfica, Lage claramente não está. Aliás, arrisco-me a dizer que esta época de Lage é um déjà-vu aos tempos de Jorge Jesus. Após uma excelente primeira época, a JJ foi dado Salvio para substituir Ramires, que, sendo um excelente jogador, é um jogador completamente diferente do brasileiro e obrigou a uma completa mudança tática com muitos erros do treinador e muitas humilhações pelo meio. Ora, tal é muito comparável à má sucessão de Jonas e Félix. Se teria feito sentido despedir JJ na altura? Pois, ainda bem que não o fizemos.

Posto isto, saibamos dar tempo a Lage. É verdade que, até ver, não está a saber fazer grande coisa com o plantel que tem à disposição, que não me canso de dizer que está desequilibrado. É verdade que tem culpas no cartório, está longe de estar isento. No entanto, saibamos ser inteligentes nas críticas. Podemos criticar opções, podemos criticar esquema tático, podemos criticar muita coisa. Agora, pôr o homem em xeque por motivos extra-futebolísticos e, pior que isso, fazendo analogias ao período péssimo que passámos com Rui Vitória? Isto, para mim, é ser pouco inteligente e é até algo desonesto. Lage tem uma quota-parte da culpa de estarmos nesta má fase, não desminto, mas nem é o único culpado, nem é o principal culpado, nem muito menos deixou de ser o homem certo para o cargo.

PS: Alguns, uma minoria espero eu, colocam Lage em xeque por um motivo que os devia fazer corar de vergonha. Defenderam tanto Rui Vitória que levaram um banho de realidade enorme com Bruno Lage. Agora, com o despedimento de Rui Vitória ainda entalado, vendo a fragilidade do protagonista desse banho de realidade, aproveitam-se e descarregam. Este post não se aplica a esses Benfiquistas, que esses, ao porem um ego pessoal acima dos interesses do Benfica, merecem um Benfica como o que tínhamos nos anos 90.

12 thoughts on “Bruno Lage, o novo Rui Vitória? Uma reflexão.

  1. Boa noite.Concordo “ipsis verbis” com o que expõe. Na minha opinião são ideias consistentes e bem fundamentadas. A CMTV conseguiu andar uma semana inteira com o título “Os sete pecados de Bruno Lage”, após a derrota e com exibição confrangedora com o F.C do Porto. Não sei o que disseram, pois não vejo, leio apenas as “gordas”. Mas também temos quem se compraza diariamente (sim, é uma “cartilha” por dia!) a desancar em tudo o que respeita ao “treinadorzeco” (é o mínimo). O nosso futebol, perdeu qualidade, é um facto. Também perdeu protagonistas importantes. E aí está o grande desafio ao qual Lage terá de responder: tornar forte o que parece mais frágil. Espero que Lage tenha unhas para este teste, apesar das poucas condições que lhe foram dadas (inexplicavelmente e a parecer revisitar o ano do falhado Penta) e de algumas críticas que são copy past do que era escrito sobre JJ e sobre Rui Vitória. Basta trocar os nomes, o resto é igual. E são treinadores muito diferentes, como é natural e normal. Saudações benfiquistas

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  2. Boa noite,

    Concordo com grande parte do que é exposto no texto.

    A parte que não concordo tem a ver com as críticas a Bruno Lage.

    Considero-me completamente incompetente para aferir se as escolhas de Bruno Lage são boas ou más.
    Não tenho informação do estado clínico e físico dos jogadores pelo que não sei se houve poupança ou não contra o Leipzig. Mas mesmo tendo havido alguma poupança, decerto corresponderá a directrizes a que ele tem de obedecer.
    Seria a única crítica que lhe poderia fazer: desvalorizar a champions.

    Em relação às críticas que por aí medram, são uma campanha para desacreditar e minar o trabalho de quem os adversários mais temem no Benfica. Não tenho a mínima dúvida disso.

    O que é lamentável é a campanha que alguns canalhas, supostamente benfiquistas, estão a fazer a Bruno Lage, apenas e só porque para os seus interesses e as suas narrativas, quanto pior estiver o Benfica, melhor.
    Tenho acompanhado a campanha num outro blog, de um traste chamado Shadows, que nas últimas 6 semanas fez para aí uns 20(!) posts a criticar o Bruno Lage.
    Deixam passar tudo o que é crítica e insulto a Bruno Lage (e ao próprio clube) e censuram tudo o que não convém à sua narrativa. Sei por experiência própria destas censuras completamente injustificadas à luz até do que o próprio site diz: moderação na linguagem.

    Não tenho a mínima dúvida.
    Se perguntassem ao boneco Conceição se preferia que os jogos do Porto fossem todos arbitrados pelo Jorge de Sousa e o Soares Dias, ou o despedimento do Bruno Lage ele não teria dúvidas: era o Bruno Lage.

    AP

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    1. Apoiado António Pedro. Enoja-me esta campanha contra Lage, tecida pela dragartagem bem apoiada por alguns “benfiquistas” de pacotilha. Estupidez, ingenuidade, agenda escondida? Vou mais por este último ponto.
      Quanto a mim apoio totalmente Bruno Lage.

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  3. o grande mérito do lage o ano passado foi adaptar a táctica e o esquema de jogo às características dos jogadores que tinhas, dos melhores, este ano o grande erro é tentar encaixar jogadores que não tem características para jogar na táctica e no esquema que ele tem pré definido.

    na parte que me toca a única comparação que existe entre o lage e o rui é neste momento estarmos a jogar mal, alias em termos de futebol desenvolvido nos últimos tempos temos estado ao nível do que era o rui, e atenção que no tempo do rui nem sempre se jogava mal muitas vezes jogamos muito bem, agora na globalidade o tempo do rui não jogávamos bem.
    alias ontem disse na brincadeira que até parece que alguém trocou, nestes últimos tempos, o lage pelo rui e nós ainda não demos por isso.

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  4. Isto e só teóricos, o Rui Vitória ficou mesmo entalado nos vossos gargalos, isto e só porque queriam o super treinador Marco Silva, que continua a fazer excelentes épocas em Inglaterra, concordo quando dizem que RV devia ter saído no final da 3 temporada, isto porque se fechou um ciclo, mas relembro que não foi um treinador menor que passou pelo Benfica, pois ganhou seis títulos em dez possíveis em três anos completos de Benfica.
    Minha conclusão o problema não está nos treinadores, está na cabeça dos benfiquistas, por perderam a capacidade de reconhecimento e de humildade e como se diz “Um rei de barriga cheia” mas isso também se acaba e depois e que eu quero ver se não voltamos aos maus tempos de outrora

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    1. mas se a malta fosse empírica não éramos adeptos éramos profissionais de futebol.

      mas por se dizer que o rui não devia ter iniciado a quarta época é dizer que foi um treinador menor, e quem por exemplo não achava que devia ser o rui o contratado tinha obrigatoriamente de querer o marco silva, ou só existiam esses dois treinadores no mundo.

      aquela malta nos anos 60 e 70 deviam de ser todos estúpidos, muitas vezes os treinadores ficavam apenas um ano e com títulos.

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  5. Concordo quase tudo. Mas faz impressão, ver a equipa jogar assim. Quando Lage pegou na equipa corriam feito doidos , não deixavam o adversário tocar na bola. E agora? Parece futebol à Rui Vitória. Um dia destes está na Arábia.

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  6. Só não concordo que aqueles que agora mais atacam Lage, sejam aqueles que defendiam RV. Eu sempre defendi RV, fui contra a saída dele, mas estou cem por cento ao lado do Lage.
    Para mim, a grande maioria dos que agora atacam Lage, são aqueles que também atacavam RV, e atacarão sempre qualquer treinador do Benfica, à primeira oportunidade, porque no fundo o que eles querem é desestabilizar o clube, com segundas intenções (muito) mal disfarçadas…

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  7. Bruno Lage fez mal em ceder perante Vieira (talvez para continuar empregado) e, agora, como está entalado, parece um Rui Vitória nas conferências de imprensa.

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