O discurso do mister

Bruno Lage foi uma lufada de ar fresco para o Benfica. E foi-o não só porque trouxe um futebol agradável, prazeroso até, capaz de optimizar todos os recursos humanos até então desaproveitados, mas também porque galvanizou os adeptos em torno do Benfica, possibilitando uma onda vermelha que se ia tornando cada vez mais adormecida. Contudo, o efeito Bruno Lage não se cinge ao seu papel no Benfica. A realidade é que Bruno Lage foi também uma lufada de ar fresco para o futebol português, pela sua postura e pelo seu discurso. Mas, se o descrito nas proposições anteriores já foi amplamente discutido e elogiado nos últimos tempos, há um efeito involuntário que tem passado despercebido mas que é uma realidade.

Nos últimos anos, fruto de uma retórica muito inflamável por parte dos rivais, o anti-benfiquismo tem crescido a olhos vistos. É evidente que um Benfica ganhador incomoda os adeptos rivais, pelo que algumas pessoas aproveitaram-se desses sentimentos incómodos para os exacerbar, sendo que a perpetuação no poder parece ser o objetivo mais óbvio. Ademais, ter o Benfica treinadores como Jorge Jesus ou Rui Vitória não ajudava a que os ânimos serenassem. Até que Rui Vitória saiu de cena e entrou Bruno Lage, e com ele chegou um refrescante discurso carregado de respeito e sobriedade. Antes do título, muitos adeptos rivais viam nele apenas mais um paladino com palavras bonitas. Após o mesmo, o panorama tem mudado aos poucos.

Na antevisão ao jogo do passado Sábado, portanto com o campeonato ainda a zeros, Lage foi bastante elogioso com Sérgio Conceição. Conceição é um treinador cuja principal valia é a garra que imprime à equipa, e um fator chave para tal é a cultura de guerra que Conceição veicula. Todos sabemos que não há guerra sem inimizade, portanto, não foi surpreendente ver Conceição fugir às declarações de Lage sem retribuir o desportivismo. A parte interessante deste episódio é a forma como ilustra o efeito involuntário que pretendo relatar: Lage saiu (previsivelmente) bem na fotografia, Conceição e os seus métodos foram questionados, para mais quando se sucedeu um desaire inesperado em Barcelos. Ora, ver os adeptos portistas a questionar Conceição é algo que demonstra o bem que Lage tem feito.

O Porto cresceu no panorama nacional (e internacional) muito à custa de uma cultura de inimizade. Era o Norte contra o Sul, o centralismo contra o resto, et cetera. Estas premissas podiam até nem ter um fundo absoluto de verdade, mas foi assim que Pinto da Costa uniu os portistas em torno da equipa, transformando a rivalidade Benfica-Porto numa guerra não só desportiva mas acima de tudo social. Ao observar-se os adeptos portistas a questionar os métodos de Conceição, é possível extrapolar que todo este clima de guerrilha permanente e as respetivas consequências começam também a ser postos em causa. E, se tal acontece, a Lage temos que agradecer, pois tem sabido educar Benfiquistas, Sportinguistas, Portistas e portugueses no geral, com o seu discurso calmo e ponderado.

Ainda se vêem nos espaços de debate algumas opiniões céticas. Dizem que Lage é um sonso. Noutros termos, estas pessoas, não obstante o ceticismo, não são céticas, são venenosas, porque até na bondade vêem maldade. No entanto, é bom de ver que uma ampla franja da massa adepta portuguesa começa a perceber que os ódios, quando combatidos com benignidade, não só não se perpetuam como tornam o desporto naquilo que ele de facto devia ser sempre.

Quanto a mim, romântico Benfiquista, sempre fui apologista que o ódio devia combater-se com elevação. Por isso mesmo, ver a equipa de futebol sénior entregue a um senhor que não só faz tal como ainda por cima sai vitorioso é um motivo de enorme orgulho. Atrevo-me a dizer que é um senhor «à Benfica», que só fica a dever às referências desta adjetivação, senhores como Toni, Shéu ou José Augusto, porque ainda está longe de ter os mesmos anos dedicação destas grandes lendas do Benfica.

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2 thoughts on “O discurso do mister

  1. Boa reflexão e interessante ponto de vista, com o qual concordo.
    Bruno Lage foi uma lufada de ar fresco, mas precisamos de mais não apenas no nosso futebol, como também na sociedade em geral.
    Saudações gloriosas,
    Tiago

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  2. mas em abono da verdade já o rui tinha feito algo do género, com a agravante de estar a ser muito atacado, com muita elevação apenas com o senão do discurso ser muito redondo e cheio de lugares comuns.
    mas depois como se viu tudo muda quando as coisas não correm muito bem.

    e também já se viu isso no lage que mostrou alguma crispação quando as coisas não correram como o previsto e em que sofreu alguma contestação.

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