Saber discernir

Apesar de Bruno Lage não estar, de todo, imune a críticas, é preciso alguma noção quando se pede a sua cabeça.

Comecemos pelo contexto.

1. Em abono da verdade, é justo dizer que o plantel foi planeado como mandam as regras. Havia duas ou mais soluções para todas as posições e, fora o caso de Corchia, a construção do plantel foi feita atempadamente. Só que esta aparente competência mais não foi que atirar dinheiro para cima de um problema enorme, de seu nome Rui Vitória, um treinador descredibilizado e desgastado. Sucintamente, havia um elefante na sala e a direção, ao invés de o tirar da sala, decidiu construir uma jaula em madeira à volta dele, esperando que ele não incomodasse.

2. Obviamente, o elefante partiu a jaula de madeira e a situação tornou-se insustentável. Era necessário colocá-lo na rua mas era inverno e o dono da casa teve pena que ele apanhasse chuva. Quando finalmente ganhou coragem, os danos pareciam irreversíveis.

3. Chegamos então a Janeiro. O Benfica estava a 7 (!) pontos da liderança, ainda a primeira volta não tinha terminado e as perspectivas eram péssimas.
3.1. O plantel equilibrado em teoria, na realidade, não o era, porque uma série de jogadores não corresponderam e não demonstraram ser uma opção válida.
3.2. Tacticamente, a equipa era um caos. Ofensivamente era previsível e defensivamente era só deprimente de tão amadora, tanto até equipas do CNS eram capazes de nos assustar.
3.3. Fisicamente? Bem, fisicamente a equipa ressentiu-se de 3 anos e meio de metodologias de distrital. Há uns tempos, correu um boato por parte de um alegado jogador, à data, da formação Vitória, que expunha Rui Vitória como um treinador que baseava a preparação dos jogos em peladinhas absolutamente inócuas. Se o boato era verdadeiro ou não, não tenho como saber, mas a verdade é que a equipa acabava a grande maioria dos jogos num sufoco, fosse contra que fosse.

Foi neste contexto que chegou Bruno Lage. Não fosse isto suficiente, no mercado de inverno, em vez de se corrigir as falhas no plantel que nesta fase já estavam plenamente identificadas, estas ainda foram acentuadas. Num contexto destes, a confirmação do insucesso seria praticamente uma mera formalidade.

O que aconteceu? Bruno Lage, que durante duas semanas foi exposto apenas como solução temporária, de maneira quase milagrosa, transforma esta equipa numa máquina de jogar à bola, vence em Guimarães, em Alvalade e no Dragão, e chega ao primeiro posto. Pedir mais era difícil.

1. Tacticamente, fez o que pôde. Montou um esquema táctico novo para uma boa parte dos jogadores, mais ofensivo e dinâmico, que permitiu marcar muito mais golos. Defensivamente, ainda há muito trabalho para fazer, até porque agora os defesas têm que ter preocupações que antes não tinham (principalmente jogar mais subidos para a construção) mas também há muitas melhorias. Dificilmente se faria melhor em tão pouco tempo. Com um calendário tão cheio, o foco dos treinos tem de ser principalmente o trabalho físico, sobrando muito pouco tempo para o trabalho táctico. Não é por acaso que este trabalho táctico se faz, essencialmente, na pré-época. É preciso não esquecer também que são 3 anos e meio de anarquia completa.

2. Fisicamente, dificilmente se conseguia corrigir, num ápice, 3 anos e meio de maus vícios. Obviamente, a equipa ressentiu-se e uma boa parte dos jogadores não são ainda capazes de aguentar o ritmo, mas já se notam melhorias.

3. Jogadores anteriormente dispensáveis e jovens que antes não contavam tiveram que passar a ser opções. O caso mais engraçado é mesmo o de Taarabt, que teve de ser chamado perante tamanha escassez de opções ofensivas…

Mesmo com tanta contrariedade, contra todas as probabilidades, o Benfica chega à 30ª jornada em primeiro lugar.

Lage tem dois erros gravíssimos de abordagem: Frankfurt na quinta-feira passada, e Alvalade na segunda mão da Taça. Compreende-se que ele sinta que não tem equipa para lutar por tudo, mas não deixam de ser erros de abordagem grandes, principalmente Alvalade. Agora, é preciso relativizar. É a primeira experiência dele enquanto treinador principal, e é evidente que ele vai evoluir.

Dito isto, na quinta-feira senti-me algo traído porque um homem a quem reconheço muito Benfiquismo foi muito pequenino. Porém, é preciso discernimento e cabeça fria a analisar a big picture. Uma desilusão não pode pôr em causa a sua posição quando ele tem sido um milagreiro.

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2 thoughts on “Saber discernir

  1. É curiosa a extraordinária visão do actual e formatado benfiquista !…enquanto se menoriza quem recuperou a equipa, sem esquecer que foi a terceira ‘escolha’ do visionário das luzinhas, e a colocou no lugar cimeiro, com uma pequena vantagem, é certo, para poder reaver o título de Campeão Nacional !…

    permite-se a quem ‘entregou’o P3N7A logo em Janeiro, nas incumpridas, para não variar, promessas de reforço do plantel e que só conseguiu o acesso aos milhões da Champions, graças à estupidez dos s@pos !…

    ir conseguindo escapar, novamente, da ‘tempestade’ entre os grossos pingos da chuva…

    Saudações Benfiquistas e Boa Páscoa

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